Ferramenta traça caminho de tecnologia do laboratório à patente

16th July 2018
Posted By : Enaie Azambuja
Ferramenta traça caminho de tecnologia do laboratório à patente

Pesquisadores da USP em Ribeirão Preto criaram um método que identifica rotas tecnológicas: caminhos percorridos por determinadas tecnologias, da mais antiga até a mais promissora. O recurso oferece possibilidades amplas de análises, com destaque para previsão de tecnologias emergentes. O cenário antecipado de inovações deve propiciar tomada de decisões e investimentos em futuras tecnologias.

O sistema usa, entre outras técnicas, o que os especialistas chamam de “mineração de patentes por meio de análise de redes”, que permite traçar uma rota tecnológica a partir de um banco de dados mundial de patentes.

Com as informações, podem ser analisadas e entendidas as relações entre as empresas e instituições detentoras das patentes e os caminhos do conhecimento mostrados pelas citações tecnológicas (o depósito da patente, obrigatoriamente, indica os conhecimentos que utilizou).

Além de mostrar como se deu a construção de uma determinada tecnologia, a ferramenta evidencia também seu atual desenvolvimento – quem são os desenvolvedores; como foi a evolução da quantidade de patentes naquela área; quais são as empresas, de onde elas surgiram e quais os temas mais importantes.

Tudo 100% desenvolvido por pesquisadores brasileiros, resultado de parceria entre os pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Inovação, Gestão Tecnológica e Competitividade (InGTec) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP e do Centro de Terapia Celular (CTC) do Hemocentro de Ribeirão Preto, com recursos da Fapesp.

Rota tecnológica mais promissora para o Fator VIII recombinante, mostrando a evolução no tempo e as tecnologias emergentes. A direção da seta mostra o fluxo de conhecimento

Coordenadora do InGTec, a professora Geciane Silveira Porto conta que, o método permitiu traçar a rota tecnológica para o Fator VIII recombinante (proteína sintética de coagulação do sangue, utilizada para tratar hemofilia).

O estudo é resultado do pós-doutorado do biólogo molecular e biotecnologista Cristiano Gonçalves Pereira, que trabalhou com supervisão de Geciane e contou com a participação dos pesquisadores Virgínia Picanço-Castro e Dimas Tadeu Covas, CTC do Hemocentro de Ribeirão Preto.

A equipe do Hemocentro é responsável por uma patente sobre método de produção do Fator VIII (veja reportagem sobre o tema aqui) e garante que os resultados das análises da rota do Fator VIII, obtidos neste estudo, são importantes na identificação das tecnologias mais promissoras neste setor e na orientação de novas investigações.

O estudo analisou cerca de três mil patentes com 20 a 30 páginas cada, depositadas nos últimos 20 anos, e os resultados acabam de ser publicados na Nature Biotechnology. Como principal tendência para o futuro da tecnologia do Fator VIII recombinante, encontraram a associação com outra molécula [veja abaixo].

“Esse é um setor que vem crescendo nos últimos anos”, afirma Geciane. Principal terapia para hemofílicos – pessoas com deficiência do Fator VIII que necessitam tomar frequentemente injeções dessa proteína – o Fator VIII recombinante é uma tecnologia que demanda inovação.

E o interesse por essas inovações se justifica pelos problemas que enfrenta atualmente: meia-vida curta da proteína sintética obriga pacientes a tomar injeções frequentes e, por ser um corpo estranho, pode ser rejeitada pelo organismo que a recebe.

As análises da rota tecnológica para o Fator VIII recombinante mostram a evolução do conhecimento científico dessa proteína da década de 1996 até hoje. O desencadeamento se dá da mais nova tecnologia até a que deu origem a todas as demais. Conta o pesquisador Pereira que “muitas delas já viraram produto, mas como hoje as tecnologias emergentes devem oferecer meia-vida mais longa, essas são as mais promissoras”.

E, para ter futuro nesse setor, as novas tecnologias precisam associar ao Fator VIII moléculas que prolonguem a meia-vida da proteína e, ao mesmo tempo, aumentem a eficiência da terapia. O paciente então precisará de menos doses do produto.

O estudo identificou também que hoje duas startups têm a tecnologia mais emergente nesse mercado. Pereira diz que elas ainda estão em testes, mas são as mais sofisticadas. Ainda segundo o estudo, uma área de inovação surgiu nos últimos anos, a de moléculas conjugadas para o Fator VIII recombinante.


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