Personalizando o tratamento do câncer de cabeça e pescoço

7th February 2018
Source: FAPESP
Posted By : Enaie Azambuja
Personalizando o tratamento do câncer de cabeça e pescoço

 

Pesquisadores do A.C. Camargo Cancer Center encontraram no sangue de pacientes com câncer de cabeça e pescoço marcadores que podem ajudar a identificar os casos mais propensos a evoluir para metástase ou a sofrer recidiva local após o tratamento. Resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram divulgados na revista Head & Neck.

“Além de apontar para novos alvos terapêuticos, o trabalho pode contribuir para tornar o tratamento mais personalizado e eficaz. Sabendo quais pacientes correm risco aumentado de progressão da doença, o médico pode optar por um tratamento sistêmico com drogas mais potentes”, comentou o oncologista clínico Thiago Bueno de Oliveira, coautor do artigo.

O chamado câncer de cabeça e pescoço corresponde, na verdade, a um conjunto heterogêneo de tumores que afeta locais como a cavidade oral (lábios, língua, assoalho da boca ou palato), os seios da face, a faringe e a laringe – além das glândulas, vasos sanguíneos, músculos e nervos da região.

Mais prevalente nos países em desenvolvimento, representa o 9º tipo de câncer mais comum no mundo, com 700 mil novos casos anuais segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimou para 2017 cerca de 22 mil novos casos dos dois tipos mais comuns: cavidade oral e laringe. O consumo frequente de tabaco e álcool são os principais fatores de risco.

Nos últimos anos, porém, tem crescido o número de casos associados à infecção pelo papilomavírus humano (HPV), principalmente entre os pacientes mais jovens.

Com o objetivo de entender como as células malignas conseguem se desprender do tumor primário, cair na corrente sanguínea e colonizar outros locais do organismo, o grupo do A.C. Camargo usou como ferramenta a técnica da biópsia líquida.

O método consiste em avaliar fluidos corporais (sangue, saliva, urina e outros, dependendo do caso) em busca de fragmentos de DNA tumoral, de pequenas vesículas secretadas pelas células malignas ou das próprias células tumorais circulantes (CTCs).

Esse tipo de análise permite ao médico conhecer, em diferentes estágios da doença e do tratamento, as características do tumor e como ele está reagindo às drogas. O trabalho foi coordenado pela pesquisadora Ludmilla Thomé Domingos Chinen, do Centro Internacional de Pesquisa e Ensino (CIPE), do A.C. Camargo Cancer Center.

“Neste caso específico, nós avaliamos no sangue de 53 pacientes a presença de CTCs, células que se desprendem do tumor primário quando ele ainda está em desenvolvimento e caem na corrente sanguínea”, contou Ludmilla Chinen.

Todos os casos incluídos no estudo eram considerados avançados – seja pelo tamanho do tumor ou pelo fato de as células malignas já terem começado a invadir tecidos adjacentes. A doença, porém, ainda estava localizada (não havia metástase) e havia chances de cura.

Os pesquisadores usaram uma espécie de filtro – uma membrana com furos de 8 micrômetros de diâmetro – para separar as CTCs das demais células sanguíneas. “Esses microfuros permitem a passagem de leucócitos, hemácias e demais células normais do sangue.

Porém, a maioria das CTCs tem de 10 a 36 micrômetros de diâmetro e acaba ficando retida na membrana. Depois olhamos esse material no microscópio”, explicou Oliveira.

“O enfoque do nosso grupo era buscar nessas células tumorais proteínas diferencialmente expressas que poderiam estar associadas à resistência ao tratamento ou ao risco de metástase”, contou Chinen.

O primeiro achado que despertou a atenção dos cientistas foi o fato de as CTCs estarem presentes em mais de 90% dos pacientes com câncer de cabeça e pescoço localizado.

Ainda mais surpreendente foi que o índice de positividade se manteve estável em uma segunda análise, feita depois que os pacientes haviam sido tratados com cirurgia, quimioterapia e radioterapia (diferentes combinações, de acordo com o tipo de tumor).

Além disso, em 28% dos casos, essas CTCs estavam agregadas em grupos de três ou mais unidades formando os chamados microêmbolos. Como explicou Chinen, os microêmbolos podem ser considerados organoides porque, além das CTCs, contêm leucócitos, plaquetas e outros tipos celulares agregados. Na análise feita após o tratamento, o índice de positividade para microêmbolos caiu para 23%.

“Observamos que esses microêmbolos estavam sempre cercados por plaquetas e começamos a desconfiar que estavam se aproveitando de algum fator liberado por essas células na circulação. Decidimos então analisar se as CTCs expressavam uma proteína chamada TGF-βRI [receptor de fator transformador de crescimento I], citocina produzida pelas plaquetas e envolvida no crescimento tumoral”, contou Chinen.


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